A criança

Prof. JÉRÔME LEJEUNE

Associação portuguesa de pais e amigos das crianças diminuídas mentais. 3a semana dedicada à criança diminuída mental. Actas. Lisboa, 1980 - Esta comunicação foi proferida peio Autor na Sessão de Abertura da 3a Semana e apareceu publicada em português, em primeira mão, na revista SERVIR, vol. 28, n.° 1, Janeiro-Fevereiro de 1980. Transcrevemo-la para aqui com a devida vénia.


Sommaire


Donoso Cortês dizia que só os con-templativos são capazes de julgamentos justos porque os referem a Deus. En-quanto que os hábeis são capazes de todas as tolices porque não se referem senão a si próprios. E Donoso Cortês continuava, dizendo: "Não há senão um único ser na criação que associa, em si mesmo, a sagacidade dos contemplativos e a malícia dos hábeis. A sagacidade dos contemplativos visto que também ele sabe que Deus existe, e a malícia dos hábeis porque, como estes, ele luta contra Deus. Este ser é o diabo".

E, ao ler esta reflexão de Cortês ela parecia-me diabolicamente justa aplicada à Europa de hoje. Aparentemente Satanás sabe que não entram no Reino dos céus senão aqueles que se assemelham à s crianças .E é provavelmente por isso que ele dirige o seu ataque aos filhos dos homens e muito especialmente à s crian-ças da Europa. Vir em socorro delas não é uma questão de moral. É uma questão de vida ou de morte: um povo que mata os seus filhos, mata a sua alma. E até os responsáveis pelas estatísticas são obrigados a reconhecê-lo.

Como podemos nós esquecer que, em cada ano a República Federal Alemã perde duzentos mil cidadãos-o equivalente a uma grande cidade.-Para os novos conformistas, para os humanistas da moda isto é, dizem eles o preço da abundância. E, nisto, assemelham-se de uma maneira estranha, ò faceta mais horrível de Napoleão. Não ousou ele dizer um dia: "tenho uma renda de mil homens"? É talvez a frase que ele pronunciou que mais faz estremecer.

Mas os nossos humanistas são ainda piores do que Napoleão. Eles já nem falam dos seus rendimentos. É o próprio capital da Europa que eles estão e delapidar, a sua própria carne, a sua própria alma, as suas crianças.

Como é possível que um tal delírio se apodere de todo um continente? E creio que tal facto não é possível senão por um erro, por um erro absoluto, de tal modo enorme que já nem se dá por ele.

Os nossos novos conformistas pretendem que o homem é feito pela sociedade, que é esta quem lhe dá a sua inteligência e que, por conseguinte, a sociedade tem o direito de dispor do homem em função das leis que ela elabora e usa para si. Eles pensam e dizem que esta qualidade principal do honrem-a inteligência-não é senão o fruto de uma actividade social. Daí, para eles, o direito evidente de rejeitar aqueles que ainda a não manifestam: as crianças que estão no ventre das suas mães; ou ainda aqueles que a não manifestarão quase nunca: os infelizes da hereditariedade, os mal amados, os mal formados: ou ainda aqueles que já quase a não manifestam: os velhos sucumbidos sob o peso das fraquezas terminais. E os mercados da morte suscitam ao mesmo tempo, os que matam a aurora e os que matam o crepúsculo. E em nome da mesma inteligência eles destroem aqueles que são ou foram seus depositários. E graças a uma inteligência dirigida pela imbecilidade dos hábeis, como segundo creio, teria dito Donoso Cortês, eles ligavam-se contra os filhos dos homens e talvez mais exacta-mente contra o Filho do Homem. E não é por acaso que este combate é dirigido por aqueles que se dizem "os filhos da Viúva" implicando assim que eles se recusam a reconhecer que têm um Pai comum.

E no entanto, todo o conhecimento acumulado desde há milénios ensina-nos o contrário da sua hipótese de partida. A inteligência humana e toda a ciência não são produtos da sociedade ou da civilização, nem são produtos da evolução no sentido automático do termo: a inteligência dos homens existe porque eles são feitos assim, e porque ela lhes foi dada inteira e gratuitamente.

Eu queria primeiro tentar demonstrá-lo. Para o fazer tomarei o exemplo da mani-festação mais abstracta e menos discutível da inteligência humana: o campo das mate-máticas. E mais precisamente ainda o da geometria.

Conta-se, em todos os manuais-e nós não temos razão para o pôr em dúvida--que a geometria nasceu, um dia, junto à s margens do Nilo, sob o céu do Egipto. E con-tam-nos que para medir as suas terras os camponeses inventaram a sua métrica. Enfim, isto não parece assim tão inverosímil se tivermos em conta que, antes que construíssem a imensa barragem de Assuão, todos os anos uma inundação se espalhava sobre a planície do Nilo e, após a retirada das águas, deixava atrás de si uma área plana quase perfeita; então, nada de mais natural do que semear ali algumas pirâmides! Foi assim, pretende-se, que a geometria veio aos homens.

Permitam-me que duvide. E permitam-me que vos conte a história de outra maneira completamente diferente-não que eu possa afirmar-vos que ela se tenha passado como eu vo-la vou contar, mas como dizia Edmond About: as histórias mais verdadeiras não são sempre aquelas que aconteceram.

Aqui está a história mais verdadeira.

Os namorados, como se sabe, passam longas horas a mirarem-se nos olhos, horas, no entanto, demasiado curtas. E isto é tão verdadeiro que todas as línguas do mundo denominam da mesma maneira esta pequena abertura circular, a pupila, através da qual nós observamos o mundo. Nós dizemos em francês: Ia pupille, que vem do latim pupilIa que quer dizer menina. Os Gregos diziam: Chorée que quer dizer 'menina. Os Ánabes dizem: Insam el Ein que quer dizer pequeno ser humano no olho; os Espanhóis dizem: Ia nina dei ojo e os Portugueses: a menina do olho; os Iranianos dizem: Mardomak que é a mesma coisa. Os Cingaleses dizem: Ahé Baba que é a mesma coisa; em Vietnamita diz-se: Nguoi, também igual; e em Japonês: Hito-Mi, sempre a mesma coisa.

Não é por acaso que há uma tal convergência em todas as línguas humanas. É por uma razão muito simples: Quando olhamos de perto o objecto amado, vemos sobre o espelho convexo que forma a córnea uma imagem pequenina que é a nossa imagem, e ela é tanto mais brilhante quanto ela se destaca sobre o fundo escuro da pupila, pequena janela que nós abrimos sobre o mundo.

E eu não ficaria surpreendido se esta interessante propriedade óptica das super-fícies esféricas tivesse sido descoberta primeiro pelas mulheres, visto que todas as línguas, ou quase, a designam por "a menina do olho".

Mas assistamos agora à descoberta da geometria. Para isso nós seremos obrigados a fazer um postulado: um dia, um namorado dotado de um espírito matemático caiu em contemplação. Estas coisas acontecem. Isto passava-se, talvez, efectivamente, sob o céu do Egipto (eu não tenho nehuma razão para pôr em dúvida a sagacidade dos antigos egípcios) e observando esse olho cuja pupila estava contraída sob a brilhante luz do sol do Egipto, ele apercebeu-se de repente que estava diante da superfície mais per-feita do mundo, a única que descreve as propriedades do plano geométrico. Com efeito o olho é constituído pela intercepção de duas esferas: uma esfera de pequeno raio que é a córnea e uma esfera de raio muito maior, o globo ocular. A intercepção das duas esferas é um círculo. E a íris, que nós vemos, esse diafragma de diversas cores, é composto por pequenas fibras que por um lado estão firmemente agarradas a um círculo e por outro estão apertadas umas contra as outras por um músculo cir-cular. aquele que permite fechar e abrir a pupila.

Assim o nosso geómetra apaixonado descobriu uma superfície tensa firmemente agarrada a um círculo e de tal modo que cada um dos pontos das suas fibras está à mais pequena distância possível dos outros pontos.

Não há outra definição do círculo, nem outra definição do plano visto que nas matemáticas mais modernas descreve-se agora o plano pelo cálculo vectorial, redes cobrindo o que um apaixonado, Euclides, com um simples olhar, inventou num abrir e fechar de olhos. Eis o que consolaria muitos estudantes se se lhes dissesse a verdade! ...

Após esta descoberta fundamental, nós afundamo-nos piara além desta janela por onde nos chega a luz, até ao centro obscuro que vê, essa região do cérebro que temos na nuca a que chamamos a zona calcarina. E o que é mais extraordinário, o que dificil-mente se acredita mas que não é susceptível de discussão, é que se, pacientemente, nós seguirmos esse trajecto desde o mundo exterior até esse centro que vê. nós encontraremos por ordem todas as etapas do desenvolvimento das matemáticas.

Foi necessário esperar alguns milhares de anos para que Descartes que duvidava compreendesse, num instante, como era feita a retina. Sabem que a revolução cartesiana consiste em definir a geometria por coordenadas, quer dizer pelas rectas que se cruzam, de certa maneira, sobre um tabuleiro de damas, e em definir a posição de cada ponto pelo quadrado de um tabuleiro de xadrez. Pois bem, podeis pessoalmente entregar-vos gratuitamente a esta experiência, da revelação que teve Descartes. Uma noite ou uma manhã, estando repousados, numa sala medianamente obscura, apoiem suavemente dois dedos sobre as vossas pálpebras fechadas; lentamente mudem a pressão e, em dado momento, chegarão a ver bruscamente que todo o vosso espaço visual está preenchido por um quadriculado de minúsculos quadrados vermelhos, uns brilhantes, outros sombrios e que represesta com muita precisão o tabuleiro de damas das coordenadas cartesianas inscritas na retina muito antes de um matemático, que duvidasse, esfregasse os seus próprio olhos para ver se tinha visto bem.

Hoje, sabemos mais. Depois de Descartes nós ultrapassámos a retina e se nos afundamos metendo-nos nos centros nervosos encontramos o momento em que os nervos ópticos se cruzam. E encontra-se o que se chama, em gíria moderna uma bijecção.

Continuemos mais longe: chegando perto deste centro obscuro que é o quadro de bordo que nos faz olhar, encontram-se projecções e se se olha para a maneira como é construída esta extraordinária máquina para analisar as imagens, encontram-se anéis, espaços fibrados, matrizes e muito exactamente o conjunto daquilo que, pacientemente, descobrem os algebristas modernos, e que estava ali desde todos os tempos, esperando simplesmente que os homens encontrassem a maneira como eles eram construídos.

Não é por acaso, provavelmente, que o desenvolvimento das matemáticas se fez segundo as mesmas etapas que a análise da visão se produz no nosso cérebro. Mas, simplesmente porque nós reinventámos, pacientemente, a maneira como fomos construídos.

Nós poderíamos dar outro exemplo. Nós poderíamos considerar o olfacto que reconhece as moléculas e é capaz de destrinçar as fórmulas químicas ainda antes de as terem inventado. Poderíamos ter considerado o ouvido que mede, ao mesmo tempo. o tempo e o peso e compreender porque é que foi ao levantar-se debaixo da sua macieira que Newton sentiu pêlos canais semicirculares do equilíbrio que levantando-se ele ressentia o movimento e que, portanto, a Terra o atraía.

Poderíamos considerar toda a maquinaria neurológica que permite à inteligência humana manifestar-se para compreender que ela é inteiramente dada, que ela não é uma aquisição, que ela é verdadeiramente herdável no sentido de ser uma transmissão de geração em geração.

Quando eu vos falava do centro obscuro que vê. não era para aliar duas palavras que pudessem chocar-nos. Sabe-se que nós não vemos com os olhos, mas com os olhos do espírito que, curiosamente, estão na parte de trás da cabeça, visto que agora é possível colocar ali eléctrodos muito finos e enviar impulsões eléctricas correspondendo aos pontos de uma imagem que um sistema de televisão teria analisado, e -assim permitir, aos cegos ver-e ver como nós vemos, ponto por ponto, menos bem analisados, mas de mesma maneira.

Isto leva-nos a procurar compreender, a fim de ter uma impressão da extraordinária complexidade desta máquina de que nós somos dotados e que nos chegou, eu diria simplesmente: pela Graça.

Pode-se, seguramente, experimentar ver os efeitos da inteligência humana nas suas criações. Olhar a colunata de um templo, ou o esplendor de uma estátua esclarece-nos talvez, tanto sobre a inteligência humana como qualquer outra actividade. Mas. mesmo assim, eu creio que nós vemos melhor num espelho e o espelho que nós inventámos. o que nós possuímos agora, é o das máquinas capazes de assimilar certas funções da inteligência.

Como sabem, foi um certo Blaise Pascal quem inventou a primeira máquina. E foi ele quem teve o génio de se aperceber daquilo que se considerava na época como a mais alta função do espírito, a saber: o cálculo aritmético, era uma coisa maquinal que podia ser simulada por rodas e uma estrutura.

Na hora actual, as calculadoras-talvez alguns dentre nós tenha uma portátil na sua algibeira- são muito mais pequenas e muito mais aperfeiçoadas que a máquina de Pascal e aparentemente, elas não funcionam pelo mesmo princípio. Pascal apercebeu-se de que era preciso contar dez unidades para fazer uma nova unidade de uma ordem superior, seria suficiente ter rodas com dez dentes e no fim de uma volta completa, esta arrastaria por meio de encaixe a roda seguinte. Isto permitia realizar as quatro operações.

As máquinas modernas parecem-se muito mais com a inteligência humana do que esta simples máquina aritmética.

Elas parecem-se com a inteligência humana porque nós as descobrimos-quando digo "nós", eu não contribuí em nada para o aperfeiçoamento dos computadores, mas observo-os-nós apercebemo-los de que existem leis à s quais deveria corresponder um sistema para que elas pudessem assemelhar-se a certas funções da inteligência. E curiosamente, estas leis não são numerosas.

A primeira é que deve existir uma rede lógica, preparada e pré-inscrita. Diríamos " imprimida ", na linguagem dos computadores.

A segunda, é que deve haver uma transmissão absolutamente clara dos sinais de um para o outro lado, isto é sem, curto-circuito.

E a terceira, é que deve haver, em cada lugar e em cada cruzamento do circuito uma resposta: sim, ou não. Deve existir uma porta que deixe ou não deixe passar. E curiosamente, voltamos a encontrar nesta lógica binária, que agora se ensina nas escolas, aquilo que, tão bem dizia Alfred de Musset: "É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada". E toda a lógica está nisto. Num plano mais elevado encontramos -e eu creio que isto é um grande conforto- que o conselho do Evangelho é indis-pensável à boa marcha do espírito, a saber "sim, sim-não, não".

Não é possível construir uma máquina que simule certas funções da inteligência. que responda de tempos a tempos; talvez sim, talvez não e isto não é de surpreender porque se a lógica é, como eu penso, um anti-acaso, isto é um meio uma espécie de sistema para eliminar o fortuito, para só reter o dedutível, torna-se indispensável que cada uma das suas etapas seja completamente verdadeira e segura e "sim, sim-não, não" é o único meio de o alcançar, é muito bom que os construtores de computadores tenham descoberto isto".

Contudo, a complexidade do cérebro de um modesto cidadão ultrapassa, em muito, as mais extraordinárias máquinas que se tenham imaginado e queria dar-vos uma pequena ideia. Que é simultaneamente tranquilizadora-se nos compararmos à s máqui-nas-e ao mesmo tempo um pouco impressionante, se nos apercebermos de repente da coisa extraordinária que nos é oferecida.

O nosso cérebro contém pouco mais ou menos onze mil milhões de células ner-vosas. Os grandes computadores só possuem alguns milhões.

Mas esta é uma comparação injusta, porque de facto, cada célula nervosa é capaz de trocar contactos com um número variável de outras células, num mínimo de uma centena e no máximo de dez mil. Ou seja, cada célulla nervosa é por si mesma e ela mesma uma pequena calculadora já mais potente que aquelas que compramos no comércio.

O equivalente das composições do nosso cérebro eleva-se a números absoluta-mente astronómicos, qualquer coisa como 1014. E no entanto é um número que se não formula em nenhuma língua. Quanto aos cabos, aos fios, e à rede que liga estes diferentes onze mil milhões de neurónios entre si, é de um comprimento impressionante. Se desbobinássemos a rede de neurónios de um cérebro humano, se colocássemos topo a topo esses fios extremamente ténues, o seu comprimento teria mais ou menos a distância daqui à lua e regresso. E o mais extraordinário, o que está para além rias concepções que podemos ter no sentido de compreendermos claramente esta realidade. é que todas as especificações desta extraordinária máquina-não só os seus planos de construção, mas os planos que vão construir as máquinas-estão contidas numa minúscula célula, num ovo fecundado.

Toda ia informação necessária e suficiente para fabricar o ser humano, não só com os seus braços, as suas pernas e a sua cabeça, mas também, com essa extraordinária máquina que vai ela própria analisar o universo, tudo cabe, muito à vontade, sobre a ponta de um alfinete. Apercebemo-los até de que é suficiente que a máquina seja impressionada no momento da fecundação e que lhe dêem os meios de sobreviver para que ela chegue aos seus fins.

Deixen-no viver, ele pensará, é o destino dos homens...

E os novos conformistas, aqueles que não realizam completamente o de que falam, no fim parecem-se muito com os computadores-com computadores ou com politiqueiros, Estas duas variedades, uma de máquinas e outra de seres maquinais, parecem-se curiosamente. São completamente limitadas na sua capacidade de análise do programa que as comanda. Elas têm tudo em memória, mas compreendem muito poucas coisas e, sobretudo, não perdoam nada.

As máquinas são efectivamente feitas pelo homem e não é de admirar que encon-tremos nas mais perfeitas dentre elas uma espécie de espelho da maneira como nós somos constituídos. O que quer dizer que as máquinas, os computadores, são como que a inteligência desencarnada. E é por isso que a sua capacidade nos parece, à s vezes, tão temível. Os homens são totalmente ao contrário, eles são uma incarnação da inteligência. É por isso que cada um deles é tão precioso.

Vós direis: "Isto são reflexões de um especialista, de um neurólogo ou de um geneticista ; como podemos aceitar isto. como o poderemos fazer compreender à queles que não estão familiarizados com o desenvolvimento actual da técnica e da ciência? Pois bem, eu acredito que é muito possível. E é possível de três maneiras:

Uma, é a caminhada científica, que cada um pode compreender. A outra é a caminhada artística que cada um pode sentir. E a terceira é a revelação religiosa que faz sentir e compreender ao mesmo tempo, o que nos ultrapassa por completo.

Vamos primeiro à ciência. Eu dizia que na primeira célula que resulta da pene-tração do espermatozóide no óvulo-e portanto de ser posto em comum a metade do património transmitido pela mãe e a outra metade transmitida pelo pai-existiam todas as informações necessárias e suficientes para fazer um homem. Não. porém. para fazer um homem no sentido geral, mas para fazer aquele homem, aquele que mais tarde iremos chamar Pedro, Paulo ou Madalena. Isto é possível porque a transmissão da vida utiliza a linguagem mais concisa que existe. Todas as características que vão definir todas e cada uma das qualidades de uma pessoa estão inscritas sobre uma grande molécula de ácido desoxiribonucleico que é parecido, se quisermos, ainda que as proporções sejam infinitesimais, como a fita magnética de um gravador.

E assim como o gravador vai reproduzir inteiramente a sinfonia inscrita sob forma de código por meio de minúsculas mudanças na magnetização locai sobre a fita. também a célula que contém estas numerosas fitas magnéticas vai tocar de novo a sinfonia da vida. Contudo, esta sinfonia é diferente, uma vez que recebeu do nosso pai e da nossa mãe somente a metade do partimónio, de uma forma extremamente compli-cada; não se trata de uma só bobine, pois nós temos vinte e três bobines, e cada um dos nossos pais nos transmite umas ou outras destas vinte e três bobines, o que dá um número astronómico de combinações. Como é possível que as bobines sejam divididas. como se tivessem uma montagem de cinema, e se recebe um passo de uma e um passo de outra, demonstra-se de maneira muito elementar, que o número de combinações genéticas ultrapassa de longe, mas extraordinariamente de muito longe,- números que não podemos pronunciar de tal modo eles são elevados- o número de homens que existiram sobre este planeta! Estamos pois certos de que cada homem possui uma fórmula única e completamente insubstituível. Ela não tem nenhuma oportunidade de se reproduzir num futuro que seja previsível em termos astronómicos.

Se procurarmos no mais profundo deste determinismo molecular que transmite uma mensagem veiculada pela matéria, apercebemo-nos de que, no conjunto da biologia moderna, toda a teoria das estruturas moleculares se resume em muito pouca coisa. numa frase que todos conhecem: "No princípio, há uma mensagem, esta mensagem está na vida e esta mensagem é a vida." É muito curioso ver que o caminho intelectual. o mais determinista, o mais materialista no sentido de seguir a passo e passo a infor-mação veiculada pela matéria, pode resumir-se parafraseando de forma inábil o começo do Evangelho segundo S. João. E não é surpreendente. É absolutamente necessário que não haja contradição entre o verificável que chamamos ciência e a verdade que nos é revelada.

Isto, sem dúvida, parece um pouco abstracto e os geneticistas podem ser acusados de querer inventar uma espécie de logos que animaria a matéria e a obrigaria a criar forma numa natureza de homem. No entanto é exactamente dop que se trata: Isto não é uma hipótese, é uma observação experimental. Mas é também necessário convencer os nossos contemporâneos.

E como poderemos nós fazer-lhes compreender que este ser minúsculo que, no momento da fecundação, mede apenas um milímetro, contém realmente a sua própria mensagem, é realmente um ser humano, com a única diferença de ser maravilhosamente Jovem?!

Muitos dizem que é uma concepção filosófica, conceber que um ser humano exista sob uma forma tão reduzida-os matemáticos diriam "reduzido à sua expressão mais simples". Por exemplo, foi dito que o aborto era uma espécie de crime metafísico. Pois bem, não é uma concepção filosófica, é uma prova que cada um pode compreender. sem referência à s moléculas e a toda a maquinaria genética. É a história dos filhos de Edwards. Sabeis que um geneticista inglês chamado Edwards realizou com êxito, não há muito tempo, uma fecundação in vitro. Ele retirou de uma mulher um óvulo, colocou-o num meio um pouco complicado mas, no sentido biológico do termo, muito sim-ples, misturou esperma do marido nesse meio e um espermatozóide conseguiu fecundíar este óvulo que começou a dividir-se activamente no minúsculo frasco e que, depois, foi reimplantado no útero da sua mãe. Os jornalistas deram grande relevo ao caso. Eles disseram que era um "bebé proveta", o que não significa nada. Mas o importante -e que parece ter escapado aos meios de comunicação-é que finalmente, pela pri-meira vez, no homem, houve a demonstração formal e irrefutável, de que a vida de um ser humano começa no momento da fecundação. Se esta minúscula coisa, este pequeno embrião que se dividia em células, não fosse já um ser humano, jamais a sua implanta-ção no útero teria possibilitado uma gravidez e o nascimento de uma feliz menina.

Longe de considerar esta experiência como uma coisa tremenda a qual nós, cató-licos, devamos calar, consideremos pelo contrário que ela acontece pela primeira vez na nossa espécie-porque já se tinha realizado há muito tempo nas espécies animais (há cinquenta anos que isto foi feito pela primeira vez no animal). Agora, pela pri-meira vez na nossa espécie, tivemos a demonstração sem discussão filosófica e, justamente, por observação experimental, que o ser humano começa, como todas as coisas, no seu princípio.

É certo, que há um perigo. O poder que temos agora de principiar a vida de homen-zinhos em tubos, no exterior do abrigo maternal, pode ser uma tentação tremenda. É possível que isto venha a diminuir, no espírito geral da população, o respeito que é devido a uma vida que começa.

E isto é um perigo. Mas este não existirá se nós tivermos a coragem e, direi mesmo, a prudência, no sentido de previsão, de explicar que não há nenhum perigo ver desenvolver-se um pequeno homem, num tubo, no início da sua existência, com a única condição de que a ciência nunca venha a esquecer as conclusões todas que tem em suas mãos, ou seja a certeza formal de que esse pequeno ser é já um membro da nossa espécie, todo inteiro e maravilhosamente jovem, mais jovem que todos os outros.

A segunda via que podemos utilizar é a da arte.

Os artistas sabem mais disso que os sábios-e não utilizam somente o córtex cerebral-esta maquinaria da qual eu procurei evocar-vos a complexidade-eles utilizam uma outra parte de nós mesmos a que chamam em termo genérico o "coração", porque não podemos defini-lo melhor.

Pois bem, para compreender como podemos realizar esta vida anterior, esta exis-tência da qual perdemos a memória durante os primeiros meses da nossa vida no ventre da nossa mãe, só os artistas é que podem exprimi-la. E para vos dar uma ideia eu proponho-vos uma pequena excursão. Entremos numa discoteca e desçamos a escada; chegamos a um espaço abobadado, escuro, quase negro, onde só uma luz avermelhada e velada permite distinguir o que se passa no interior.

A atmosfera é quente, húmida, o cheiro é acentuado, vêem-se corpos que se movem lentamente, e que de repente se põem rapidamente à s voltas. Há um barulho, um barulho enorme, o ritmo agudo dos instrumentos que faz vibrar o crâneo de quem lá está, depois a música surda e profunda de contrabaixo que obriga a caixa torácica de todos a tre-mer a cada compasso. E as pessoas que lá estão, nesta atmosfera, e que dançam, parecem, gostar. Porquê? Porque se lembram! ...

Tudo o que passaram na sua existência obscura e de que perderam a memória intelectual está exactamente representado nesta atmosfera na qual querem reviver. Outrora, quando eles eram muito pequeninos, quando não eram maiores do que o pequeno polegar,-a história do pequeno polegar é sempre verdadeira-quando eles não eram maiores que o polegar no ventre da sua mãe, havia também um abrigo abobadado, onde existia uma ligeira luz avermelhada, onde havia também um odor forte, uma atmosfera húmida, onde o seu corpo se movia e onde a sua cabeça vibrava a um ritmo agudo, rápido. o do seu próprio coração que batia a 140, a 150 o ritmo das matracas-e onde a sua caixa toráxica também se comprimia e se alargava sob um outro ritmo mais lento. mais forte, mais possante, as pulsações da aorta materna que são cerca de 65, o ritmo habitual de um contrabaixo. Não é por acaso que os especialistas da música POP redescobriram e recriaram esta atmosfera que corresponde a alguma coisa que eles esqueceram, mas de que, provavelmente, o seu coração mantém a memória.

Por último resta a forma mais elevada, aquela que nos foi ensinada pelo mais célebres dos médicos, São Lucas, e que disse tudo num número de palavras tão pequeno que eu tenho vergonha de tentar aumentá-las. Mas contudo é preciso que eu procure dizê-lo.

Quando da Visitação, o pequeno Profeta, que Isabel trazia dentro de si, tremeu no seu seio quando se apercebeu da presença do seu Salvador que Maria trazia. Nessa época, Isabel estava grávida precisamente de seis meses --São Lucas frisou bem esse pormenor. É talvez a mais bela descrição da extraordinária inteligência do feto humano este estremecimento do pequenino Profeta.

Mas o que é muito mais estranho é que nessa época a forma humana de Nosso Senhor era extraordinariamente jovem. São Lucas não diz nada a esse respeito. Diz simplesmente que após a Anunciação "Maria correu". E na Galileia as distâncias não são muito grandes, ainda que percorridas a pé. E a forma humana do nosso Salvador devia ser incrivelmente jovem quando, pela primeira vez, o pequeno Profeta a descobriu.

São Lucas disse-o de forma tão curta que quase tenho vergonha de a repetir com grandes frases.

Esta história que é a mais bela e a mais comovedora do mundo, ensina-nos- para voltar ao que atrás disse a propósito das máquinas-que os nossos novos conformistas esquecem a outra parte deste dom maravilhoso que nos é feito quando vimos ao mundo: é que a nossa *** é somente uma máquina abstracta, é também incarnada, e que *** a razão ou, mais precisamente, que a razão não é nada sem o ***.

Disto temos bons exemplos da historia recente da nossa Igreja. Tivemos um Papa que pedia aos homens que tivessem um espírito duro e um coração brando. Depois tivemos um Papa que tinha um coração muito meigo havemos um outro que tinha um coração dilacerado. E mais recentemente tive *** tinha um coração de criança, *** aliava totalmente a sua força *** da sua razão. Ele velo pela *** do Espírito, e partiu como um sopro suave que se apaga.

Aparentemente a Europa é dura para com as crianças, eIa é dura para com aqueles que têm um coração de criança. E contudo é nelas que está a sua única alternativa, a sua única esperança ... A nossa única possibilidade é a de procurar voltar a dar-lhe esta união entre o coração e a razão. É o único meio de salvarmos a inteligência.