O direito de nascer. Médico francês que descobriu a causa genética da síndrome de Down, impedido de falar no Brasil, faz crítica radical ao aborto

Entrevista: Jérôme Lejeune

Veja (Brésil), 11 de setembro 1991


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0áspero confronto entre os defensores do aborto e seus opositores, que nos Estados Unidos já virou uma verdadeira guerra, fez uma vítima grave no Brasil. Convidado para participar de um congresso de Medicina Fetal, promovido entre 22 e 25 de agosto pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o médico francês Jérôme Lejeune teve a palavra cassada diante do boicote erguido por outros conferencistas, ingleses e franceses. Católico praticante e crítico ferrenho do aborto, Lejeune está acostumado a comprar brigas famosas na defesa de suas opiniões, mas agora se declara profundamente chocado. "É a primeira vez que sou convidado a participar de uma manifestação dessa ordem para ser desconvidado em seguida", disse ele ao desembarcar de volta em Paris, na quintafeira passada.

Professor da Universidade René Descartes, de Paris, e especialista em Genética Fundamental, Lejeune passou quase a metade de seus 65 anos de vida cuidando de portadores da síndrome de Down, vulgarmente conhecida como mongolismo, uma anomalia incurável que só no Brasil afeta 120 000 crianças e um número igualmente grande de jovens e adultos. Na década de 50, Lejeune se tornou mundialmente conhecido por uma descoberta crucial. Ele constatou que os portadores da síndrome de Down têm um cromossomo a mais do que as pessoas consideradas normais. Seu feito foi celebrado pela comunidade científica internacional, pois era a primeira vez que se descobria, no ser humano, uma doença decorrente de um erro cromossômico. Atéentão, acreditava-se que a síndrome de Down - identificada em 1866 por John Landgon Down - fosse uma "regressão a raças inferiores". Nessa entrevista, Lejeune fala da ética do aborto, da vida dos deficientes mentais e dos progressos no tratamento dos excepcionais.

VEJA - Como o senhor analisa o boicote promovido par seus colegas médicos no congresso realizado erre São Paulo?

LEJEUNE - Essa atitude revela uma profunda intolerância e nega todos os princípios da democracia e da liberdade que os próprios defensores do aborto utilizam como argumento para justificá-lo.

VEJA - 0 senhor se sente uma voz solitária?

LEJEUNE - Sou constantemente atacado por minhas posições e sei que minha presença é tacitamente proibida na televisão francesa. Mas, assim como eu, acredito que a maior parte dos médicos é contra o aborto. Qualquer profissional que faz o juramento de Hipócra-tes pensa dessa forma. E uma bobagem quererem fazer de mim o porta-voz solitário de valores supostamen te ignorados pela sociedade. Embora a legislação francesa favoreça o aborto, a es sência da classe médica pensa como eu.

VEJA - Os modernos exa mes pré-natais, que podem ser feitos rias primeiras se manas de gestação, permitem que se saiba, com antecedência, se a criança terá alguma deficiência. Nesses casos, o Senhor acredita que os pais têm a direito de recorrer ao aborto?

LEJEUNE - Minha resposta é não. Paramim, o aborto é um crime em qualquer circunstância. Os fetos que apresentam problemas, as crianças que nascem doentes, com síndrome de Down por exemplo, têm todo o direito de viver, o mesmo direito dos seres humanos considerados 100% saudáveis. Os defensores do aborto dizem que o feto na barriga da mãe, especialmente nas primeiras semanas da gravidez, ainda não é uma pessoa, ainda não vive. Isso é uma distorção da verdade científica.

VEJA - Para a senhor, a viela começa a existir no momento da concepção?

LEJEUNE - Não quero repetir o óbvio. Mas, na verdade, a vida começa na fecundação. Quando os 23 cromossomos masculinos transportados pelo espermatozóide se encontram com os 23 cromossomos da mulher, todos os dados genéticos que definem o novo ser humano já estão presentes. A fecundação é a marco do início tia vida. Daí para a frente, qualquer método artificial pari destruí-la é um assassinato.

VEJA - Isso significa que, para o senhor, não há nenhuma diferença entre a mulher que faz aborto porque a criança nasceria com um defeito e a que o faz simplesmente porque não deseja o filho?

LEJEUNE - Não sou juiz e não tenho formação jurídica para estabelecer o que é correto. Mas é possível que, na interrupção voluntária da gravidez, existam fatores atenuantes. Isso, no entanto, não é um problema médico mas jurídico ou moral. Como médico, digo apenas que um feto é sempre um feto. Um bebê sempre um bebê. E, se ele é doente, devemos estar a seu serviço - e não ajudá-lo a morrer. Do ponto de vista médico, as duas modalidades de aborto são iguais.

VEJA - Uma regra aparentemente geral entre pais e filhos excepcionais é a superproteção. Hoje em dia, alguns psicólogos acreditam que a superproteção é uma rejeição disfarçada. Como os pais devem lidar com filhos deficientes?

LEJEUNE - É normal que os pais protejam uma criança que é mais frágil do que as outras. Só faço uma recomendação geral aos pais: preocupem-se mais com a criança do que com a doença. Não me sinto no direita de condenar os pais que protegem em demasia os filhos, com problemas. Eles apenas estão tendo uma reação de carinho, muito natural e compreensível no ser humano.

VEJA - O senhor condena o chamado aborto terapêutico, ou seja, a interrupção da gravidez quando se sabe, de antemão, que a criança nascerá defeituosa, apenas por motivos médicos?

LEJEUNE - por motivos módicos e cristãos, porque sou um homem de fé, um católico praticante. Mas é preciso que se deixe bem claro: não existe aborto terapêutico. Uma "terapia" que mata 100% não é uma terapia. 0 "aborto terapêutico" deveria ser chamado de aborto de conveniência. Eu daria até um outro nome: aborto racista.

VEJA - 0 que o leva a concluir que essa é uma prática racista?

LEJEUNE - Sugerir que se elimine este ou aquele ser humano porque possui esta ou aquela anomalia é um comportamento racisto. Os pais que defendem isso não querem ter um filho doente. Então fazem uma espécie de racionalização. Decidem matar a futura criatura simplesmente porque ela terá um problema, porque tem um cromossomo a mais. Isso é puro racismo cromossômico. Na síndrome de Down ou trissomia 21, por exemplo, já há um preconceito embutido na sua própria denomi-nação vulgar. Ela é chamada, popularmen-te, de "mongolismo", porque as crianças que a porte têm um aspecto particular que lembra ligeiramente, para um ociden-tal, as feições de um tipo asiático. Na Mongólia, porém, a doença não deve ser chamada de mongolismo, mas de "imbecilidade ocidental".

VEJA - Mas as pessoas que defendem o aborto, no caso de o feto apresentar defeito, dizem que fazem isso em nome da criança, que teria um sofrimento enorme para carregar durante a vida.

LEJEUNE - pela minha experiência, o aborto resolve o problema dos pais, não 0 dos filhos. É ingênuo acreditar que os pais defendem o aborto porque o feto tem um problema irreversível. Na verdade, essas pessoas se servem das doenças detectadas pelos modernos exames prénatais para que tenham o direito de se ver livres de uma criança com má-formação, para não terem um problema. É uma lógica curiosa. Quando eu era jovem, era moda dizer que aquele que ama castiga. Nunca acreditei nessa história. Agora, insistem numa nova tese: quem ama mata. Jamais aceitarei isso.

VEJA - Qual a diferença entre loucura e deficiência mental?

LEJEUNE - Os excepcionais possuem uma noção perfeita do bom senso. Eles não têm a capacidade de realizar raciocínios complicados, de fazer cálculos matemáticos, por exemplo. Mas dominara uma faculdade essencial e superior do ser humano: sabem distinguir o que é belo do que neto é, o que é sensato ou não, o que é bom e o que é ruim. As dificuldades da síndrome de Down, por exemplo, noa têm nada a ver com o delírio da loucura. Só não podemos exigir dos deficientes que eles façam determinadas atividades - de resto, o comportamento deles é plenamente integrável à sociedade.

VEJA - 0 que o senhor faria se soubesse que a sua mulher estava esperando um filho com a síndrome de Down?

"O aborto resolve o problema dos pais, não o dos filhos. É ingênuo acreditar que os pais defendem o aborto porque o feto tem um problema irreversível. Eles se servem das doenças detectadas pelos modernos exames pré-natais para que tenham o direito de se ver livres de uma criança com má-formação"

LEJEUNE - É claro que jamais pensaria em aborto. Dedico minha vida a cuidar das crianças, dos jovens e dos adultos portadores da síndrome de Down. Quero-os vivos, muito vivos. Faria o possível parira ajudar a meu filho a saber caminhar sozinho no mundo que o cerca.

VEJA - Existem deficiências mentais, como a síndrome de Down, que são provocadas durante a gravidez. Outras aparecem durante o nascimento o decorrem de traumatismos ou da falta de oxigenação do cérebro. Há anomalias mentais que só se manifestam depois do nascimento. O que é obra da fatalidade e o que é de responsabilidade dos pais?

LEJEUNE - Nas debilidades ligadas à inteligência, a irresponsabilidade da família se reflete em duas situações: no alcoolismo e no consumo de drogas. A mulher que belbe durante a gravidez intoxica, ou seja, envenena a criança. Conhecemos um pouco menos os efeitos das drogas, mas sabemos que elas também agridem o feto. Uma outra obrigação da sociedade é exigir que as mulheres sejam vacinadas contra a rubéola antes mesmo de pensarem em ter filhos.

VEJA - Qual o papel da idade da mãe como fator de risco?

LEJEUNE - A idade ideal de reprodução se situa entre os 20 e os 35 anos. A reprodução completamente desaconselhável antes dos 15 e depois dos 45 anos. Essas são faixas comprovadamente de risco. É preciso educar a população para isso. Na síndrome de Down, uma mulher que tem entre 20 e 30 anos tem uma possibilidade sobre 2 000 de pôr no mundo um filho deficiente. Se ela é muito jovem ou já passou dos 40, esse risco chega até a 2% dos casos. Isso é muito. Se quisermos diminuir a incidência da síndrome de Down, basta aconselhar as mães a não terem filhos muito cedo nem tarde demais. Com isso, a incidência da doença cairia em pelo menos um terço.

VEJA - E os deficientes mentais? É justo que eles tenham filhos, correndo o risco de também gerar em filhos deficientes?

LEJEUNE - Creio que as pessoas que possuem alguma espécie de debilidade e não são capazes de cuidar de seus filhos devem optar por no tê-los. Cabe a nós, médicos, orientar os portadores da síndrome de Down, por exemplo, porque é inconveniente que eles procriem.

VEJA - A chegada de um filho, mesmo saudável, é um evento único na vida dos casais. Traz alterações enormes na estrutura familiar. Que mudanças ocorrem na família quando se descobre que o filho tem algum defeito?

LEJEUNE - O nascimento de uma criança com problemas, mentais ou físicos, uma revelação terrível. Os pais sofrem profundamente e este sofrimento pode levar a duas situações. Uma é a reaproximação do casal, que se une como nunca. A família torna-se exemplar, excepcionalmente carinhosa. Outra possibilidade é os pais não suportarem o golpe, e aí a família se quebra. Mas a experiência mostra que há menos divórcios nas famílias cujos filhos têm deficiências do que nas famílias com filhos normais. Conheço mais de 2 000 portadores da síndrome de Down, com nome e sobrenome, e em sua grande maioria os pais vivem bem. São felizes, apesar de tudo.

VEJA - Por que, então, alguns especialistas recomendam que as crianças com síndrome de Down freqüentem escolas di-ferenciadas, exclusivas para deficientes?

LEJEUNE - E necessário considerar, antes de mais nada, que nem todos os portadores da síndrome de Down são iguai. Há diferenças, essenciais entre eles. Alguns beiram a normalidade absoluta e outros têm dificuldades seriíssímas. Estes últimos devem mesmo freqüentar classes especiais, já que não conseguirão adaptar-se à s outras crianças. Os deficientes menos graves, porém, devera ser colocados em escolas normais. Sentirão uma certa rejeição no início, mas logo estarão integrados.

VEJA - Há novidades na prevenção, detecção e tratamento da síndrome de Down?

LEJEUNE - Pouco se tem avançado na prevenção e na despistagem da síndrorne de Down, A ecografia e o estudo de determinadas reações químicas ajudam a detectar a presença da doença - mas isso já ocorre há quinze ou vinte anos. Podemos descobrir a mal em inúmeras oportunidades, mas o fato de os exames não identificarem o problema não é uma garantia total de que o bebê semi saudável. O que existe de novo - e isso se desenvolve de forma impressionante - são os avanços na terapia do deficiente mental.

VEJA - Que avanços são esses?

LEJEUNE - Eles ocorrem em duas direções. A primeira delas, extremamente inteligente, pode ser comparada ao motor de um automóvel que saiu da fábrica com uma vela a mais. 0 carro deveria ter quatro velas mas foi produzido com cinco. Um mecânico despreparado simplesmente jogaria fora uma das velas. Esse mecânico seria a pessoa que defende o aborto, quando se constata que a criança apresentará a síndrome de Down. Um mecânico preparado, no entanto, daria um jeito de desconectar a vela a mais. É nesta direção que andam as pesquisas. Buscamos medicamentos capazes de silenciar o cromossomo extra.

"Os excepcionais têm uma noção perfeita do bom senso. Não podem realizar raciocínios complicados ou fazer cálculos matemáticos. Mas dominam uma faculdade essencial e superior do ser humano: sabem distinguir o que é belo do que não é, o que é sensato ou não, o que é bom do que é ruim"

VEJA - E qual é a segundo caminho das pesquisas terapêuticas da síndrome de Down?

LEJEUNE - Descobriu-se que certas reações químicas são mais rápidas entre as portadores da síndrome e que essas reações acabem por agravar o mal. Nassa suposição é que, ao controlar com medicamentos a liberação dessas substâncias, estaremos também atenuando a deficiência mental. Creio que era uni futuro muita breve, coisa de poucos aros, o sofrimento do deficiente poderá ser bastante reduzido.

VEJA - A vida dos portadores da síndrome de Down é melhor hoje que no passado?

LEJEUNE - Acho que não. Antes, tanto a civilização européia como a brasileira eram essencialmente rurais. 0 garotinho com debilidade ficava no seu ambiente de origem, na sua cidade, ia de uma casa para a outra, tornava-se uma figura respeitada e ajudada pelos outros. No mundo atual, extremamente dependente da técnica, a vida dos deficientes mentais piorou. Tome-se como exemplo o que ocorre num metrô, seja na de Paris ou no de São Paulo, com seus guichês de venda de tíquetes eletrônicos, suas catracas que precisam ser acionadas pelas pessoas e assim por diante. Eu mesmo, que não tenho nenhuma deficiência, fico perdido. Sinto-me incapaz, intelectualmente. Imagine-se, então, a dificuldade dos meninos e meninas com a síndrome de Down pára circular naquela parafernália. Hoje, já sabemos mais sobre os doentes, o preconceito é menor. Mas existe esse obstáculo do mundo moderno, 0 homem, historica mente, é hostil aos que, não têm sucesso e, quando desenvolve seus aparatos técnicos, não se preocupa com os deficientes.

VEJA - As pessoas tidas como normais sabem com certa precisão quais são as dificuldades dos deficientes mentais. E eles? Os deficientes mentais conhecem seus limites?

LEJEUNE - Sim, com essa mesma precisão. Sabem que não serão campeões de Matemática e não sonham com isso. Dou um exemplo. Se encontro um rapaz muito branco e magro, com 1,65 metro de altura, vejo que ele jamais poderia ser um campeão de boxe peso pesado. Não é grande o suficiente, não é forte o suficiente e não é negro. Não valeria nem a pena treiná-lo. Os deficientes também não podem ser campeões de boxe e não se sentem inferiores por causa disso. Resignam-se e pronto.

VEJA - A sociedade sabe identificarum deficiente mental e sabe melhor ainda como deixá-lo de lado. O que eles acham das pessoas "normais", que só neste século já se meteram em duas guerras mundiais?

LEJEUNE - Eles não julgam as pessoas capacitadas pelas suas características intelectuais. Porém possuem um julgamento preciso e reconhecem com facilidade quem está sendo gentil ou não. Eles tem noção exata de quem é bom e de quem está sendo mau. E aproveito para fazer, aqui, um apelo. Gostaria que as pessoas consideradas normais, cadavez que encontrassem um portador da síndrome de Down, acreditassem nele. Não há gente mais sincera no mundo em que vivemos.